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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Crack, política ou solução real?






Este humilde e novo blogueiro sempre se perguntou se alguém do poder público já "perdeu" alguns minutos ouvindo a realidade do usuário de crack pra, realmente, entender. 
Ouvi o depoimento de Fabian Nasser, que fumou craque por 6 anos, e resolvi transcrever para o amigo leitor ...

"Cavalos e bombas como andaram fazendo pra afastar quem usa crack, na cracolândia, não vão resolver nada. Deve ter alguma pressão de alguma forma, dos moradores, dos lojistas, para eles terem este tipo de ação tão repressiva. Não é assim que vai resolver o que acontece. Existe uma frase bem conhecida nas ruas, enquanto existir quem quiser comprar a droga, sempre vai existir quem quer vender.Isso em qualquer lugar. 

Eles estão fazendo alí como se estivessem numa fronteira e aí espantasse todo mundo para o lado de lá. Parecendo que lá é outro país, não é Brasil, não é mais problema nossso. 

As pessoas não buscam ajuda por causa da dor e do sofrimento como diz o governo...não tem mais dor e sofrimento que eles possam passar, a próxima dor e sofrimento que eles vão passar é a morte. Esse é o próximo passo. No estágio que eles estão eles vão continuar migrando, tentando conseguir droga pq quando eu estava na rua eu tinha que dar um trago no crack a cada 20 minutos, se não minhas pernas começavam a tremer. Então, eles vão dar um jeito. 



Agora o que me espanta é que, faz 3 meses, eu me lembro que veio um grupo de Brasilia, um ônIbus com vIdros escuros, veio e passeou por lá varias vezes carregando políticos, isso ai foi o melhor que eles conseguiram fazer?
 Depois soltar bomba e cavalos para todos os lados foi a melhor coisa que eles conseguiram fazer?
A polícia diz que a abstinência vai fazer com que esses viciados vão procurar auxílio desesperado...primeiro que não vai ter abstinência...se eles estão achando que dificultando a compra os usuários não vão ter o crack, isso não existe. Tem mais ou menos umas 30 cracolândias em São Paulo e mais de 300 pontos de venda. 
O fato de eles ficarem aglomerados no centro da cidade é uma estratégia dos crackeiros, eles usam desta estratégia pq eles sabem que, quando a policia aparece, eles correm cada um pra um lado e eles conseguem sair ainda com um pouco da droga que eles têm, ou seja, eles não perdem a droga. A preocupação deles não é serem abordados pela polícia e sim perder a droga naquele momento. As pessoas pensam que a cracolândia é esse aglomerado de pessoas que nos vemos nas ruas. Isso aí e só um terço da cracolândia..tem mais dois terços de cracolândia que estão nos bordéis, que estão nos cortiços, nos hotéis pulguentos da cidade e espalhados em todo o centro. Tem pessoas que não usam na rua.
Quem já esta num processo de usar 24 horas por dia..usa na rua e usa em lugares fechados. Quando vc consegue um pouco mais de dinheiro vc paga um hotelzinho, 10 reais e vai pra dentro de um lugar. Eu ficava 3,4,5, dias fumando, 300, 400 reais de crack e quando acabava saía pra rua. Eu vivi mais ou menos dois anos no centro e quando a coisa começou a ficar feia eu fui lá pra região da Água Espraiada. (rua da zona sul da cidade) Minha rotina era assim: eu acordava e saía pedindo dinheiro. Eu ganhava de 3 mil a 3 mil e 500 reais por mês. Só pedindo, sem roubar, sem fazer nada que me levasse pra cadeia...contando historias absurdas, mentindo. Tem muitas estratégias. Eu conheço pessoas que chegam a ganhar 6 mil reais..se vc ficar numa cadeira de rodas, vc ganha até 10 mil reais. As pessoas se comovem, acabam dando 10 reais e muitas acabam dando 50.
Eu cresci no bairro de Moema. Sempre tive de tudo, estudei em colégio particular, estudei inglês, daí, eu comecei a beber e usar cigarro na escola...não era o vício da bebidinha na baladinha e o cigarro, mas a aventura de fazer tudo aquilo escondido. Com dezoito anos eu já estava usando maconha, cheirando cocaína comprando remédio, fazendo chá alucinógeno e a coisa ficou complicada. Pra tentar sair dessa eu vendi um carro que eu tinha e fui pra Miami, nos Estados Unidos. Fui estudar aviação. Então, eu fiz curso de piloto, cheguei  a pilotar, poderia até ter tirado o brevê, mas voltei a usar a droga e tive um acidente com  avião. Fiquei no Estados Unidos 6 anos e foi lá que conheci o crack. Quando eu fumei o crak eu pensei, eu não quero mais nada, essa e a droga da minha vida. 
O crack é assim: a primeira vez que vc fuma é uma alucinação esplêndida. É como se vc saísse de vc e se transformasse em outra pessoa...num mundo diferente deste. É  como se vc consiguisse ver, vc mesmo, de fora do seu corpo, so que é uma vez. Na segunda, vc já está viciado e nunca mais vai ter aquela sensação que vc teve na primeira. Eu fiquei 17 anos usando droga e 6 fumando crack. Eu trancava minha mãe no banheiro, roubava o apartamento inteiro...botava no carro, sumia com o carro e minha família teve que fechar as portas pra mim. Ou eu me tratava ou tinha que sair de casa..e entao eu fui pras ruas.


Não existe dica pra usuário. Usuário não vai ouvir dica de quem não conhece. O que eu gostaria de dizer é que dá pra fazer tanta coisa no centro da cidade...com pouco dinheiro e muita vontade. Se nós pegássemos alguns casarões...desses abandonados, fazer uma boa pintura, botar uma boa coznha...uma equipe lá dentro e abrir aquilo 24 horas...e deixar quem está fumando crak na rua entrar...dá um banho...a comida...dá atenção...conversa, põe um filme e vai usando isso, vai deixando como uma casa pra eles visitarem, pra chegar perto deles, ganhar confiança..tem uma boa parte desta cracolândia que a gente consegue atingir sensibilizando...vamos tentando, em pequenas possibilidades que vamos tendo, jogar uma semente...este é um caminho. Enquanto não sai a lei que nós vamos recolher estas pessoas involuntariamente...é  o que dá pra fazer. Pra conseguir conversar com o usuário ele precisa ficar 4 semanas ou 5 sem usar droga..aí a gente começa a conversar...em alguns países do mundo existem as salas seguras de consumo...é um exemplo.
Esses usuários eles entram nos buracos da rua pra fumar e a gente n vê...eles se matam alí apertados durante a nóia. Eu passei por 25 internacões compulsórias, isso era um comércio e eles tratavam minha mãe como cliente. A internação compulsória pode resolver, vc vai estar fazendo uma coisa que daqui um mês a pessoa te agradece. Mas, é necessário um conjunto de coisas pra largar mesmo, família, amigos, e vc querer parar. Pq se não...a pessoa volta. Eu fui caminhando para uma clínica sozinho e naquele momento o tratamento resolveu.
Eles estão divulgando todos os dia um número muito grande de abordagens nas ruas feitas pela policia e equipes especializadas, mas isso são apenas números pra aparecer...não serve pra nada...das 25 vezes que eu fui encaminhado pra tratamento, na maioria eu fiquei um dia ou dois. tratamento de dependente químico não termina é um cuidado eterno."


Fabian Nasser, ex-dependente, hoje é consultor em dependência de álcool e droga para clínicas e escolas.


A PM e a Prefeitura de São Paulo informaram em coletiva na semana passada que a estratégia usada na Cracolândia seria coibir o tráfico e forçar os usuários de desistirem da droga pela “dor e pelo sofrimento”. Apenas em fevereiro está prevista a inauguração de um centro de saúde e atendimento aos dependentes na Rua Prates, próximo à Cracolândia.
Segundo a Defensoria Pública de SP, haviam na Cracolândia menos de cinco agentes municipais de saúde, assistência social e psicologia. Desde esta terça são 287 PMs trabalhando na região.

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